Médico faz desabafo de situação que vem vivenciado na luta contra o Coronavírus

O médico Gutemberg Mendes, que mora em Boa Viagem (CE), na região do sertão Central, e trabalha na linha de frente de combate ao coronavírus no Hospital do Sertão Central em Quixeramobim fez um desabafo nas redes sociais sobre como é atuar tentando salvar vidas durante a pandemia.

Gutemberg disse que é muito difícil ver familiares se despedindo dos pacientes pelo telefone, enquanto pensa que isso pode ser o último contato que eles podem dar um com o outro.

Veja trechos da postagem:

“Paciente internada conosco há alguns dias, sempre simpática e lutando contra o covid. Perdeu o marido semana passada, que também estava internado conosco. Nem pôde se despedir… Ontem o seu quadro piorou, estava muito cansada e ao ser comunicada que seria intubada, pediu ao médico: Não, doutor, por favor! Não faça isso! Eu sei que eu não voltarei.

Nesse momento, agradeci por estar de máscara e face shield. Assim, ninguém pode ver as lágrimas que escorriam.

Tive que sair, andar pelo corredor sem rumo, respirar e voltar.

Penso que uma das piores coisas, deve ser ter consciência que em breve você poderá morrer e não poderá estar mais com quem ama. Como tenho medo disso.

Retornei… O paciente ao lado chorava.

Ela pediu o celular pra ligar pra filha. Ligou no viva voz. Do outro lado, a filha em desespero, rezando, pedindo a Deus com toda força pela vida mãe. Mais uma vez não aguentei… Pode ter sido o último “encontro” dessa mãe com essa filha, sem um abraço, sem o conforto de estar com quem ama.

Demos a mão pra ela, rezei em silêncio, pedimos para confiar pq faríamos o melhor.

Mais tarde… o paciente da mesma enfermaria, internado também já alguns dias, agravou. Estávamos ao lado dele, fazendo tudo que podíamos para estabilizar sua pressão.

Ele ainda consciente, perguntou: Posso dormir? Estou com medo de dormir e não acordar.

Respondi: Pode relaxar, estaremos aqui cuidando de você.

Ele disse: eu sei que eu vou morrer essa noite! Realmente, ele sabia.

Aquele que chorou pela paciente ao lado, agora fechou o olho para não ver o da frente. E com certeza estava pedindo a Deus para que não fosse o próximo.

É inexplicável o que estamos vivendo. Jamais seremos os mesmos. Que vírus maldito!”

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