ARTIGO: Desafios de uma gestão participativa e transparente na paróquia

O clericalismo enfatiza demasiadamente a figura do presbítero, gerando abusos de poder em todos os setores da ação eclesial

Os eventos recentes que envolvem a investigação da Afipe (Associação Filhos do Pai Eterno) e seu presidente (padre Robson Oliveira), pelo Ministério Público, na Operação Vendilhões, trazem à tona a discussão sobre os desafios inerentes à organização financeira e à transparência de entidades religiosas. Em menor escala, as paróquias enfrentam inúmeros desafios no processo de gestão de seus recursos. Apesar dos vários passos dados nos últimos anos, o gerenciamento financeiro participativo permanece um grande desafio para a estrutura paroquial condicionada por sua história. No tempo presente, é urgente tornar sempre mais transparente os processos financeiros das paróquias, seja por uma questão de credibilidade e testemunho em nossa sociedade, seja para tornar efetiva uma eclesiologia de comunhão.  

Segundo o Código de Direito Canônico, a “Paróquia é uma determinada comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, e seu cuidado pastoral é confiado ao pároco como a seu pastor próprio, sob a autoridade do Bispo diocesano.” (Cân. 515 § 1º).  Trata-se de uma estrutura bastante antiga que, ao longo do tempo, procurou tentar responder às múltiplas mudanças pelos quais passou a sociedade. Recentemente tem sido desafiada pelas novas realidades pastorais e burocráticas do presente.

Num passado não tão distante, as paróquias gozavam de certa “independência” no gerenciamento financeiro. A reputação filantropa da Igreja impedia questionamentos quanto à origem de seus recursos e o modo como eram administrados. Não se falava em transparência financeira dentro do ambiente eclesial, mesmo porque este não era um tema discutido e aprofundado no conjunto da sociedade. Por conseguinte, progressivamente, as grandes instituições foram se adaptando a esta nova situação. No caso das instituições religiosas a situação foi mais complicada.  

Os fiéis das comunidades não tinham conhecimento sobre recursos financeiros e administrativos das paróquias, quase nunca participavam da gestão. Em parte este modo de proceder advinha de uma mentalidade que tendia a separar a Igreja entre hierarquia (aqueles que sabiam) e os demais fiéis (destinatários da evangelização e do ensino). O Concílio Vaticano II opera uma série de mudanças na compreensão que a Igreja tinha de si mesma (Lumen Gentium), possibilitando uma maior participação de todos os batizados, dentro da perspectiva de uma eclesiologia de comunhão. Todos os batizados colaboram no anúncio do Reino de Deus a partir de diferentes ministérios e carismas. O ministério ordenado é UM ministério a serviço dos demais dentro da comunidade dos batizados, mas não é o mais significativo.

No caminho contrário, encontramos atualmente muitos presbíteros tentados a construir grandes templos numa espécie de desejo de volta ao passado, ao tempo da cristandade. Grandes investimentos em estruturas imponentes, apelo ao devocionismo (que não gera comunidade) e exaltação da figura do presbítero constituem alguns elementos deste tipo de prática. Além disso, vale lembrar que os presbíteros, quase nunca, estão preparados para assumir a administração de uma paróquia visto que sua formação versa sobre filosofia e teologia. De repente, eles se deparam com uma estrutura semelhante a uma empresa que está sob sua administração pastoral e financeira, contando inclusive com CNPJ e todas as exigências legais.  

Diante disso, torna-se cada vez mais urgente investir numa gestão financeira participativa atenta às necessidades da paróquia, contando com leigos conscientes e capazes de orientar/gerir este aparato financeiro. Entretanto, este tipo de gestão participativa somente se torna possível quando: primeiro, o presbítero a frente da comunidade dos batizados, está imbuído de uma eclesiologia de comunhão que gera participação efetiva dos batizados no processo de planejamento e gestão das atividades pastorais e financeiras da paróquia; segundo, quando a comunidade dos batizados compreende sua missão e importância, não alimentando uma mentalidade de “super-homem” nos presbíteros. Tendo presentes estes dois elementos é possível propagar uma cultura de transparência nas gestões eclesiásticas.

Note-se que transparência financeira não é simplesmente publicar um boletim com a síntese das entradas e saídas mensais da paróquia, mas é tornar o Conselho de Assuntos Econômicos Paroquial (Caep) espaço de discussão, deliberação e planejamento das atividades financeiras da paróquia, decidindo sobre investimentos, aquisições e recolhimento de recursos tendo em vista sempre o anúncio da boa nova do Reino de Deus. Vale recordar que existem leis eclesiásticas, no Código de Direito Canônico, que garantem o funcionamento e importância de instâncias como o Caep, contando inclusive com provisão dada pelo bispo.

O papa Francisco, dirigindo-se aos novos bispos, afirmou: “Queridos irmãos, fujam do clericalismo. Dizer ‘não’ aos abusos, sejam de poder, de consciência, ou de qualquer outro tipo, significa dizer ‘não’ com força a qualquer forma de clericalismo”. O clericalismo enfatiza demasiadamente a figura do presbítero, gerando abusos de poder em todos os setores da ação eclesial. Presbíteros que se colocam como munidos de todo o conhecimento e autoridade podem se tornar verdadeiros tiranos, inconsequentes na administração e cegos aos apelos e necessidades da comunidade.

Portanto, a gestão participativa paroquial é o caminho para uma efetiva transparência financeira que gera sempre maior responsabilidade dos batizados e credibilidade da Igreja diante de seus membros e da sociedade.

Por Padre *Francisco Thallys Rodrigues

*Presbítero da Diocese de Crateús. Especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR). Trabalha na Paróquia Nossa Senhora do Rosário em Tauá–CE e no Colégio Antônio Araripe como professor de história no Ensino Médio.

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